Manas e minas do meu país, sejam muito bem-vindas. O Queer as Geek está de volta e nessa nova fase do site vamos dar muito mais destaque para os artistas queer que estão conquistando cada vez mais espaço na cultura nacional.

Para agraciar a nossa estreia com um nome de peso, convidamos um quadrinista talentosíssimo que vem fazendo um trabalho espetacular com a webcomic Nocturne: Fred Cassar. Além de revelar tudo que ele podia sobre Nocturne sem estragar o mistério, Fred também nos contou tudo sobre sua arte — inspirações, planos para o futuro e até alguns projetos que podem surgir por aí no futuro. Foi um prazer conversar com esse fofo e o resultado a gente traz aqui na íntegra. Dá uma olhada!

Queer as Geek: Boa tarde Fred. Bem-vindo ao QaG. É um prazer imenso bater esse papo com você. Eu sou o fã número um de Nocturne e estou doido para saber tudo sobre esse webcomic incrível direto da fonte. Vamos começar?  Se apresenta primeiro para galera que ainda não te conhece.

Fred Cassar: hahaha Muito obrigado! Eu sou o Fred Cassar. Sou de Niterói-RJ e atualmente trabalho como ilustrador no Copa Studio. Produzo quadrinhos independentes pra web desde 2015.

QAG: E como você começou a desenhar?

Fred: Eu desenhava como qualquer criança da minha época (meu deus parece velho falando). Lembro de interesses pontuais que me motivaram a aprender a desenhar mais e melhor. Os muitos gibis de Turma da Mônica que eu colecionava, o boom de Pokémon no final dos anos 90 e a fanboyzisse dos meus amigos de escola por Dragon Ball (e mangá em geral).

Desde a infância, Pokémon foi deveras presente na sua vida.

QAG: Mas em que momento você se viu como quadrinista?

Fred: O interesse [por quadrinhos] sempre existiu. Fazia tiras bem simples sobre coisas e situações diversas, mas nunca ia muito além disso. Quando eu já estava na faculdade, um amigo meu me apresentou um webcomic chamado Riceboy. Eu devorei a história e aquilo mexeu bastante comigo. Era um quadrinho incrível e fechado, feito por uma pessoa só. Eu vi que era possível produzir narrativas únicas e pessoais nos seu próprio ritmo e encontrar um público aos poucos. Foi aí que alguma coisa clicou e eu entendi que era aquilo. Comecei a ler mais e pesquisar mais sobre produção de quadrinhos.

QAG: Uma coisa que fica bem aparente no seu Instagram (@freccassar) é que você desenha sobre coisas bastante variadas, desde livros, a jogos passando por muita coisa autoral. De onde vem as inspirações para o seu trabalho? O que foi mais essencial para compor seu estilo visual?

Fred: Eu me forço a variar temas, paletas, enquadramentos e outros aspectos dos desenhos.  Lógico que ainda tenho vícios e zonas de conforto dentro da minha linguagem, mas eu faço o meu melhor pra sempre trazer alguma coisa nova. Me inspiro no dinamismo de mangás shonen, em arte conceitual de RPGs, jogos de fantasia, na arte sintética de animação de TV e de quadrinhos independentes. Também sigo muita gente talentosa com trabalhos incríveis, e isso serve como fonte constante de inspiração.

Essa arte de Medabots fez eu querer um Hollow Knight com a arte do Fred.

QAG: Vou aproveitar o momento para te parabenizar pelos quatro anos de Santuários. Essa foi sua primeira webcomic publicada semanalmente, correto? Pode falar um pouquinho como foi escrever Santuários?

Fred: Santuários era pra ter sido um quadrinho teste. Eu já estava escrevendo Nocturne, mas não sentia segurança na minha linguagem de narrativa visual.

Daí veio a necessidade de produzir um mini quadrinho antes e acabou que esse mini quadrinho teste foi ter 75 páginas coloridas. Durante a produção, eu otimizei o meu fluxo de trabalho no Photoshop, me obriguei a obedecer um cronograma rígido de produção e postagem e testei bastante com composição e arte. Toda essa experiência foi enriquecedora demais e foi levada diretamente pra produção do Nocturne.

De tempos em tempos eu releio a história e fico bem orgulhoso hahahaha.
Dentro do que eu conseguia fazer naquela época, acho que eu fiz um trabalho bem bacana.

Sem diálogos, comic experimental foi crucial para Fred aprender as nuances da produção.

QAG: Fez um trabalho fabuloso! E funcionou muito bem como prática, porque logo em seguida você já lançou Nocturne, com uma atmosfera super envolvente. O quadrinho segue três jovens adultos que lutam contra monstros usando música. Pode nos falar um pouco mais de onde surgiu essa ideia e como você desenvolve os conceitos principais que regem o universo da série?

A ideia veio da tentativa de fazer uma equivalência entre um grupo de RPG de mesa e uma banda de rock. Baterista como tank, guitarrista como guerreiro/DPS, tecladista como mago etc. A ambientação do quadrinho em si puxa de um monte de referências diferentes. Banda em um contexto de batalha pega um pouco de Scott Pilgrim; monstrengos dissonantes espalhados pela cidade vêm de The World Ends With You (RPG de Nintendo DS e um dos meus jogos favoritos).

QAG: A vibe lembra muito Scott Pilgrim mesmo, só que carregado de feels. O que você espera que os leitores consigam sentir quando lêem Nocturne? Algum tema recorrente que você gostaria de tratar?

Acho que o tom do quadrinho mudou bastante de 2015 pra cá. No começo, o Noct era pra ser super focado em ação, cenas musicais dinâmicas e tal. No meio do caminho eu me peguei querendo desenvolver melhor os personagens e seus dramas, o que resultou em mais cenas introspectivas e dramáticas nos capítulos mais recentes.

Quem acha que lésbicas quando se encontram já querem casar, melhor preparar um lenço.

Eu tento não projetar muito em cima das expectativas dos leitores, mas espero estar desenvolvendo personagens gostáveis e identificáveis, apesar das suas falhas. Ah, também espero que os ocasionais pontos de humor estejam funcionando hahaha.

QAG: Tão sim, fica tranquilo hahaha Mas vem cá, em um determinado momento, tanto Milo quanto Lydia tiveram de lidar com o sentimento de abandono. Vamos ver Eric passando por algo similar? Cuida bem do meu bebê, moço. Aliás, você tem algum personagem de Nocturne preferido?

O Eric vai ter mais espaço para ser desenvolvido nos capítulos seguintes, e pode deixar que ele será bem cuidado. Tenho percebido que ele passou a ser um dos favoritos da galera e isso me deixa bem feliz hahaha!
Não consigo ter um favorito entre os três protagonistas, mas gosto muito do Alex e da banda dele (que aparecem no movimento 2). Acho que uma banda em tosquinha e headbanger de metal seria 100% a minha jam se eu estivesse no mundo do quadrinho
.

QAG: Olha, o Alex é meu crush secreto hahaha Fugindo um pouco da série principal, o universo de Nocturne foi recentemente expandido com Fantasma, o quadrinho derivado que você lançou fisicamente com apoio dos fãs pelo Catarse. Como foi trabalhar nele? Pretende expandir a série com outros derivados?

Fred: Fantasma foi um desafio grande. Eu fiz roteiro, arte, letras, cores e fechamento pra gráfica num espaço de três meses. Tive que ser super sintético com a arte e com as cores pra agilizar o processo, mas gostei bastante do resultado. Essas histórias curtas enriquecem a ambientação do Nocturne e eu definitivamente tenho vontade de continuar fazendo.

QAG: Você pode compartilhar mais sobre o que é aquele espírito misterioso que o acompanha? Podemos esperar ver o Fantasma de volta na história principal?

Prefiro deixar essas questões no ar. Assim, bem misterioso mesmo.

O que esconde o misterioso Fantasma?

QAG: Música é um elemento super presente em Nocturne. Não só compõe a identidade dos protagonistas, mas também acontecem diversas sequências musicais durante o quadrinho, o que por si só é impressionante. Quais bandas você recomendaria para acompanhar a leitura desses segmentos musicais?

O Nocturne tem uma trilha sonora própria para as partes musicais. Leo Perantoni e Vinícius Kleinsorgen, dois amigos músicos super talentosos, colaboram na composição da trilha, que é pensada e produzida aos poucos. É um processo lento que infelizmente eu não consigo coordenar com a produção do quadrinho em si, então acontece no seu próprio ritmo.

QAG: Eu li ouvindo essas músicas que estão no seu site e a experiência foi absurda. Mas além de música, games influenciam bastante o seu trabalho. Você não esconde isso em nenhum momento. Tem planos para levar seus personagens para o mundo dos games?

Fred: A idéia [de Space Punch: O Jogo] existe tem um bom tempo. Seria lindão um platform fighter estilo Smash Bros. com todos os personagens e fases que aparecem no quadrinho, nós até temos ideias de como alguns personagens funcionariam <3.

Pode não estar nos planos, mas um jogo de Nocturne ficaria uma graça.

É complicado porque o Bruno trabalha em contato frequente com desenvolvedores de jogos indie. A gente sabe o quão complicado e caro um projeto desse seria. Quem sabe no futuro??

QAG: Falando no Bruno (@brunopixels), vocês chegaram a colaborar em um quadrinho, o Space Punch. Mesmo com estilos bastante diferentes, o resultado ficou sensacional. Conta pra gente como funcionou essa parceria? Alguém dominou o projeto ou foi tranquilo?

Fred: O Space Punch é especial porque foi a oportunidade de juntar o trabalho do Bruno com o meu. Passamos boa parte de 2017 investidos no projeto, discutindo roteiro, conceituando personagens e coordenando a campanha de financiamento coletivo.

Trabalhar com o Bruno foi, sinceramente, mais tranquilo do que eu esperava. Tinha medo de misturar profissional com pessoal, mas conseguimos encontrar um equilíbrio bom. Os dois tinham controle do roteiro e cada um dava pitaco na arte do outro durante o processo inteiro. Essa troca foi importante demais pro resultado final do quadrinho.

Projeto junta personagens de quadrinhos do Bruno e do Fred

QAG: Tem uma postagem recente no Instagram que me deixou bastante intrigado. A foto é de um trio super simpático de personagens e você diz “faça você mesmo a história sobre gangues de patinadores que você quer ver no mundo”. Vai surgir uma nova webcomic disso aí ou são apenas artes incríveis para atiçar nossos corações?

Eu tenho desenhando, redesenhado e desenvolvido esses personagens aos pouquinhos desde 2017. Tenho idéias e muita vontade de levar esse projeto pra frente, numa pegada bem diferente do Noct e focando em ação super colorida e dinâmica. A prioridade no momento é desenvolver o Noct da melhor forma possível, mas é bom saber que tenho conceitos já encaminhados pra trabalhar assim que tiver mais tempo

Nada de patinadores ou coisas do tipo no momento. Todo foco está em Nocturne!

QAG: E quais os planos para o futuro? Alguma nova série secreta em produção ou o foco em Nocturne continua? Tem mais lançamentos físicos no horizonte?

Pro futuro próximo, a produção e publicação semanal do Nocturne continua firme no site. Também tenho planos pra compilar capítulos mais recentes e lançar um volume novo, talvez ainda esse ano!

QAG: Obrigado pela conversa, amigo. Diz aí para a galera onde eles podem acompanhar o seu trabalho.

Eu que agradeço! Espero ter dado respostas satisfatórias! ahahaha.
Estou no twitter como @mutejazz e no Instagram como @fredccassar. Nocturne é publicado semanalmente e de forma gratuita em pelo meu site.

O perigo se aproxima de Milo nos próximos capítulos de Nocturne.


Os próximos capítulos de Nocturne prometem. Se você curte Scott Pilgrim ou só está afim de ler algo melancólico de qualidade feito por um gayzinho brasileiro, não deixe de acompanhar Nocturne. Novas páginas toda terça feira.

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