Ler um livro do Vitor Martins é garantia de uma experiência agradável. Já ficou comprovado com Quinze Dias que sua escrita, mesmo beirando o clichê em diversos momentos, conversa muito bem com histórias do cotidiano. Em Um Milhão de Finais Felizes não é diferente.

Mesmo o livro abordando temas mais pesados que a obra anterior, o tom geral da história é tão gentil, suave e radiante que te conforta depois dos momentos difíceis. Por isso mesmo, este é o livro perfeito para trabalhar a empatia de todos os leitores e é um must read para quem tem algum amigo queer com problemas familiares.

Uma poc fanfiqueira

A história começa explorando o cotidiano do protagonista, Jonas. Ele é um jovem adulto que perde seus dias trabalhando em um cafézinho hipster temático, todo trabalhado no conceito de ficção científica, para um chefe bosta na Avenida Paulista. Até aí podia ser a história de qualquer poc paulistana. O que torna Jonas diferente é seu sonho de ser escritor e é graças a esse sonho que a história começa a pegar fogo.

Em um dia qualquer de trabalho, ele conhece um ruivo misterioso que é a pessoa mais bonita que ele já viu e Jonas não consegue se conter — tem que escrever uma fanfic onde ele pega aquele sapão. Olha, eu sei que seus olhos podem estar revirando agora pela escolha preguiçosa de interesse romântico. Sim, o crush dele é um padrãozinho bem eurocêntrico. Sim, eu também julguei bastante, especialmente com a descrição exagerada que destacou bastante como ele era a pessoa mais linda da terra simplesmente por se encaixar no padrão. Ainda assim a história é bem construída o suficiente para que isso possa ser relevado.

Relatos de um ansioso

A partir daí, a história segue enquanto acompanhamos a vida de Jonas com seus amigos, sua fanfic de piratas gays com o crush desconhecido e a situação tensa com os seus pais. O livro é narrado em primeira pessoa, o que se prova uma decisão bastante acertada. A mente de Jonas funciona de um modo distinto comparada a um protagonista usual, mas se assemelha a cabeça da maioria dos jovens adultos, aproximando o personagem do leitor. Seus pensamentos são marcados pela ansiedade e isso é ok.

Sempre sob seu ponto de vista, nunca sabemos o que as pessoas que cercam Jonas estão pensando, mas sempre sabemos como essa incerteza afeta o garoto. Não apenas a incerteza de como essas ações afetam as pessoas, mas ele constantemente se martiriza por minúsculas gafes sociais ou coisas fora do seu controle por uma pressão de agradar a todos. É uma situação complexa, que muitos podemos nos identificar e que tem tudo a ver com o tipo de criação que esse personagem fictício teve. Hora de falar do grande foco dramático do livro — os pais de Jonas e sua complicada relação com a igreja.

Gays, religião e família

Jonas teme Deus. Ele acredita que exista uma entidade superior, mas cresceu com medo extremo de seu julgamento. Sua mãe faz parte de uma igreja evangélica bastante conservadora e desde pequeno teve que ouvir que sua mera existência é uma afronta a Deus. Isso gera uma culpa enorme em fazer o que lhe faz feliz, sempre temendo esse Deus que lhe disseram guardar apenas punição e desprezo para pessoas LGBTQ.

Essas questões de culpa e de dúvida acabam alimentando os medos e paranóias de Jonas, o que acaba gerando um tênue, mas persistente conflito interno ao longo de todo livro que extrapola para todas suas interações. A catarse desse conflito vem nas cenas com seus pais. Essas cenas foram articuladas de maneira precisa e trazem um peso que contrasta drasticamente com o tom geral da narrativa. Com poucas palavras, você sente o ambiente opressor que seu lar se tornou e torce para que ele consiga um jeito bom de sair dali.

O ápice desse sentimento de angústia vem no personagem do pai de Jonas. Ele é uma pessoa extremamente desagradável com todos ao seu redor e suas cenas dão um certo asco de estar em sua presença. É um personagem que só de aparecer já prepara o leitor para um conflito desgastante que resume bem a situação insustentável que se tornou o lar do jovem.

Lindíssima, nenhum defeito

Falando em personagens, o livro tem uma coleção de pessoas incríveis e mesmo aquelas com falhas de caráter mais graves, são muito cativantes e divertidas. O destaque fica mesmo para Karina e Danilo, melhores amigos do protagonista. Não tem jeito, ambos são criaturinhas incríveis que roubam a cena quando aparecem.

Karina é super generosa e leal e está sempre ajudando Jonas a fazer as coisas que ele tem vontade, mas hesita por sua ansiedade. Ao longo do livro, ela se torna a personagem mais importante em sua vida, sendo aquela pessoa que ele pode contar em qualquer momento.

Amargo deslize

Danilo por outro lado é o personagem negro afeminado. Pense em Titus de Unbreakable Kimmy Schmit ou Eric de Sex Education. Ele é mais uma iteração desse clichê. Ele basicamente fala tudo que Jonas quer falar e faz o que lhe dá vontade, causando um contraste legal com o protagonista. Além disso, traz vários conselhos valiosos que vieram da sua experiência em ser gay assumido desde o ensino médio.

Personagens negros e gays dificilmente são retratados como objeto de desejo na mídia e costumam ser delegados a função de alívio cômico. Infelizmente, Danilo é mais um desses casos. Ao menos ele desempenha esse papel muito bem. O agravante aqui é que ele só tem relacionamentos com outros personagens negros. Não acho que foi intencional do autor, mas incomoda a meia representatividade presente neste livro, que pertetua opressões antigas, especialmente quando o autor já se mostrou muito sagaz em escrever sobre pessoas acima do peso, como Karina e Felipe, de seu último romance:Quinze Dias.

Imagem: @LukasWerneck

Casalzinho margarina

Apesar do começo peculiar com a fanfic que evolui num livro, o relacionamento entre Jonas e Barba Ruiva é bastante saudável. Enquanto ele sempre surta por pensar que seu namorado vai reagir de uma certa maneira, o boy o surpreende e parece ter todas as respostas certas para qualquer situação de conflito. Não há muito confronto entre o casal, mas suas cenas ainda conseguem prender bastante o leitor. Uma prova de como estes personagens funcionam bem juntos.

O mesmo pode ser dito sobre Tod e Bart, os piratas gays que protagonizam o livro escrito por Jonas. São poucos capítulos contando sua história, mas todos complementam bem a narrativa e não atrapalham nem um pouco o ritmo.

Esses capítulos são a maneira que Jonas encontra para processar os acontecimentos recentes em sua vida e adicionam uma perspectiva fascinante. É uma pequena amostra de como ele lidaria com seus problemas dado um certo distanciamento da sua rotina caótica. Acaba gerando uma história cativante, especialmente depois das sugestões feitas pelos seus amigos que incentivam muito a sua carreira.

Para todxs

Mesmo com alguns tropeços, Um Milhão de Finais Felizes é uma história super importante, especialmente para aqueles LGBTs que foram aceitos por seus pais. Infelizmente não é uma realidade compartilhada por todos nós. O livro vem como um exercício de empatia crucial para te lembrar que você é privilegiado SIM.

O melhor do livro é de longe seus personagens magnéticos. É impossível não morrer de vontade de passar uma tarde com Karina e Danilo e suas interações são sempre muito gostosas de ler. Este é um daqueles livros que você vai querer emprestar pros seus amigos, pro seu namorado, para sua mãe e para todo mundo que, assim como eu, acredita em toda forma de amor. Afinal, como diria Jonas, a minha cor favorita é o arco-íris.

Capa de um milhão de finais felizes. O protagonista do livro segurando um caderninho de notas.


Deixa um sorriso no rosto

4.3
Hino

Com escrita leve e acolhedora, o livro mostra a corajosa jornada de um gay em busca de uma família. Quem tem pais homofóbicos vai se sentir representado, quem não teve vai se sentir privilegiado.

Pros

O ritmo é agradável, personagens carismáticos e aborda assuntos pesados com delicadeza invejável.

Cons

Falha na representatividade negra e conflitos se concentram em um pequeno aspecto do enredo.

Where to Buy

Show Full Content
Previous Tempestade Iminente — trazemos as novidades do próximo evento de Overwatch
Next QAG Ícones: Conversamos com Fred Cassar sobre feels, futuro e Nocturne
Close

NEXT STORY

Close

Vingadores Ultimato: 6 jogos para entrar no trenzinho do hype

18 de abril de 2019
Close