Não vou criar falsas realidades para falar de um filme como Arábia. O filme não é sobre criar uma grande moral da história, nem para dar esperança ao proletariado brasileiro que busca sobreviver nesse mundo. Encaro o longa-metragem dirigido por Affonso Uchôa e João Dumans mais como um ensaio derrotista do trabalhador brasileiro e a sua longa jornada ao esquecimento.

 

Falo derrotista sem usar de nenhum conceito pejorativo. Muitos dos maiores filmes do cinema mundial são derrotistas: Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica, como outros muitos filmes do neorrealismo italiano, usam do derrotismo para provocar um forte sentimento no espectador. E Arábia traz essa dor pungente que tem o poder de criar um fogo de tomada de consciência no corpo de quem assiste. Traz também a afinidade com a realidade italiana, muito tem de suas características documentárias: trabalhadores atuando nos papéis de si próprios, personagens quais reagem veridicamente ao texto que ouvem pela primeira vez e a liberdade do agir. E mesmo assim, foge de se atrelar ao “naturalismo diluído” para contar a sua história – estão apenas relatando acontecimentos, sem tratá-los como uma verdade absoluta. Trabalham o poder encantatório da realidade, pela voz de um trabalhador esquecido do interior de Minas Gerais.

Mas por que o falar do trabalhador de Arábia se torna tão importante para o mundo em 2018? Segundo Affonso Uchôa, o estágio do capitalismo que estamos tem como consequência que “vivemos num mundo onde não conseguimos ver uma montanha e não pensar numa hidrelétrica”. Esse estágio, onde se enxerga o neoliberalismo e o modo de produção capitalista como uma religião, cria a perda do vínculo do trabalhador com o seu trabalho. Você deixa de produzir algo para se tornar apenas uma peça no maquinário do sistema capitalista.

 

Arábia é a continuação espiritual de Vizinhança do Tigre, longa de Uchôa que também conta com Aristides de Sousa no papel de protagonista. As obras tem a sua separação: são conceitos diferentes de linguagem cinematográfica, embora a muitos pareça que o personagem Cristiano em Arábia seja o Juninho de Vizinhança, dessa vez mais adulto e calejado com as dores que a vida lhe trouxe. No papel de Cristiano, Aristides cresce como ator; os enlaces emocionais do personagem lhe trazem mais nuances interpretativas. Embora tenha sua certa distanciação de Cristiano, é notável que Aristides traz muito da sua pessoa para o papel. Affonso e João fazem um excelente trabalho ao trazer as emoções do mundo real para seu universo ficcional. Não há dúvidas de que as relações de amizade que criaram com os atores tenham influenciado na interpretação do filme.

Entretanto, há de se entender que o filme embora tenha recebido uma grande reprodução e status em cinemas mais frequentados pelas classes mais altas da população, que Arábia não é um filme feito para a elite. Seu caráter independente com certeza foi definidor para que só esteja em exibição em áreas elitizadas – a empresa carregada de distribuição, a Grasshopper Film, tem apenas 3 anos no cinema -, mas o seu método de linguagem é completamente acessível independente do seu prévio conhecimento cinematográfico. A linguagem coloquial de certo influenciou nesse quesito. Sua mensagem direcionada ao proletariado torna-se de mais fácil compreensão, acertando onde muitos cineastas brasileiros foram preciosistas demais. Dessa forma, Arábia tem chances de tocar muitos corações fora do circuito comercial, que é de fato reduzido aos poucos que podem pagar pela elitização do cinema.

Ao contrário do que pode ser visto como uma pobreza no quesito estético do filme, Affonso e João alcançam na simplicidade os momentos mais bonitos da história. Sabem muito bem tratar a escuridão e o silêncio. O que pode parecer como ausência de conteúdo é de fato um movimento pensado e que surte efeitos curiosos no espectador. A ressalva que pode ser feita é a escolha pela narração ao invés da exposição em determinados momentos do filme.

 

Mas o ponto fraco dessa crônica do trabalhador é de fato a distribuição. A iluminação confusa que afeta a beleza de poucas cenas noturnas não é nada perto ao fato do filme não estar sendo exibido por todo o Brasil. Sua duração nas salas é exemplar: Arábia está na sétima semana em cartaz apesar do pouco espaço. Acredita-se que sejam as últimas semanas de exibição comercial, porém o forte sentimento de representatividade faz-me acreditar que os espectadores irão segurar o filme nas salas de cinema por mais algum tempo. Mas fica claro que o filme não morrerá nas salas de cinema da Zona Sul, impedido de crescer pelo pó-de-alumínio do capitalismo. A mensagem de tomada de consciência há de chegar nos cantos periféricos das cidades e Arábia irá poder pontuar a muitos corações revolucionários de que eles não batem solitariamente.

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