O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo. Um grande fator nessa realidade é o chamado Revenge Porn, quando fotos ou vídeos íntimos de uma pessoa são disponibilizados na internet sem o consentimento de uma dessas partes. E em 90% desses casos, temos um homem tentando humilhar uma mulher. Não é à toa que essa experiência traumática pode trazer tantas mazelas físicas e psicológicas para as vítimas, fazendo várias delas ameaçarem suas próprias vidas.

Com isso em mente foi criado o Projeto Caretas, idealizado por Nicolás Ferrario e Gastón Gertner, com roteiro de Ferrario e Everton Behenck, e apoiado pela Unesco.

O Projeto

Se trata de um bot para aplicativo do Facebook Messenger. Um programa que dá respostas automáticas e assim simula uma conversa com os usuários desse chat. Nesse caso, o bot pertence à Fabi Grossi (interpretada por Kathia Calil), uma jovem de 21 anos recentemente vítima de mais um caso de Revenge Porn.

A experiência é um teste de empatia, acompanhamos essa personagem fictícia enquanto ela passa pela humilhação de ser exposta dessa maneira, enquanto lida com o assédio de estranhos que conseguiram seu número de celular e enquanto duvida de si mesma, de sua culpa no ocorrido, e de como pode falar com seus pais.

São dramas extremamente humanos e muito impactantes, Fabi é carismática e realista. Mesmo sendo ficção, a dor que sentimos por ela é mais que real. Pesamos cada uma de nossas palavras enquanto tentamos navegar por esse momento delicado de sua vida, tentando mandar mensagens de apoio que possam fazer alguma diferença.

A experiência só se torna mais real quando ela começa a te mandar prints de conversas que ela teve com seu ex-namorado, selfies dela se esforçando para continuar com sua vida, e até mensagens de áudio extremamente emocionais nos momentos mais difíceis.

(Existe spoiler nesse caso? Se existe, aqui está o seu aviso!)

[alert type=red ]Spoilers, acho…[/alert]

Depois de alguns dias de conversa (a duração da experiência varia para cada um baseado no quão rápido você responde), o melhor acontece: Fabi se vê revigorada pelo amor que sente vindo de seus amigos, seus pais, e principalmente de você. Num dos maiores clichês do recomeço, ela pinta seu cabelo e sai para enfrentar a sua vida passando um tempo fora das redes.

E assim ela se despede, com um agradecimento sincero e te deixando com um calorzinho de ter ajudado e ter feito a coisa certa. A experiência é íntima e real, e utiliza magistralmente essa “mídia” tão comum às nossas vidas. É muito interessante pensar para onde esse tipo de arte vai a partir daqui. O advento das mídias sociais trouxe toda uma nova gama de espaços para que esses tipos de experiências floresçam, já que a mensagem é potencializada devido ao meio mais próximo e realista.

Se você se interessou pela experiência e quer fazer parte dela, basta procurar por Fabi Grossi no aplicativo do Messenger do Facebook e dizer um oi. Caso queira parar, é só mandar um PARE a qualquer momento. Mas se esse for o caso eu indico que você pare de ler esse texto e procure fazer isso agora. O que estou prestes a dizer pode estragar um pouco a experiência.

Os Limites da Tecnologia

Depois que terminei o “jogo”, me sentindo feliz por ter feito a coisa certa e ajudado aquela mulher em apuros, meu lado humano desligou e meu lado gamer entrou em controle. Eu queria jogar de novo, ver o outro lado. Peguei as informações de login de um amigo (você não pode recomeçar uma vez que acaba) e fui, como uma criança jogando GTA e voando até o final do mapa, testar os limites da experiência.

É aqui que tudo desandou.

A pessoa que me apresentou à Fabi disse que, dependendo do que eu falasse eu poderia salvá-la do suicídio, naturalmente foi isso que fiz, sempre pensando que se falasse algo errado poderia ter o efeito oposto e causar o suicídio da jovem.

Nessa segunda jogada, tentei justamente isso. Reproduzi o tipo de machismo mais nojento que consegui pensar, culpei ela por tudo que aconteceu e o resultado foi… o mesmo. Explorei mais, comecei a falar bobagens sem nexo, insultos diretos, até mesmo simplesmente não responder. E a história continuava no mesmo caminho que vi antes.

No final, recebi as mesmas respostas, o mesmo agradecimento, a mesma selfie com cabelo descolorido e mensagem calorosa de recomeço. Eu já tinha suspeitado, na primeira experiência, que Fabi reagia mais a SE eu respondia do que a O QUE eu respondia, e a realidade foi ainda mais preguiçosa.

Entendo que como todo novo meio de contar uma história, o chat do Facebook tem limites, mas esperava que pelo menos reconhecesse algumas palavras chave e me desse em troca algumas mensagens diferentes. Não precisava nem ter o final triste, mas não queria o mesmo.

Quero deixar claro que o projeto Caretas nunca prometeu uma narrativa com vários finais, eu fui aqui completamente vítima das minhas próprias expectativas. Mas saber disso faz com que todo o sentimento de peso, de intimidade tomasse uma camada de falsidade. A experiência, antes carregada de significado, ficou oca.

De todas as formas a triste história de Fabi Grossi ainda é única, ainda é impactante, ainda é muito bem executada, mas só deve ser tida uma vez.

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