A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é conhecida pelo seus atos contra a diversidade no cinema. Embora muitos dos filmes indicados para os Oscars pautem essa diversidade de inúmeras formas, existe um esforço para que isso não saia das histórias e caminhe sobre os tapetes vermelhos da cerimônia. As vistas da indústria cinematográfica pareceu revolucionário Jared Leto vencer um Oscar por uma personagem transexual, mesmo por trás de todos os questionamentos sobre a não-utilização de uma atriz trans para o papel. Porém não muito tempo depois a cantora Anohni foi escondida da visão do público, não pôde performar sua música indicada ao Oscar de Melhor Canção Original, Manta Ray, por razões não especificadas e aparentemente transfóbicas. Por que condenar algo que você diz celebrar? Seria tudo uma grande publicidade para a indústria?

A cantora Anohni, que boicotou a cerimônia da Academia em 2016.

Esse questionamento entra mais uma vez em pauta às vésperas da cerimônia desse ano, que conta com dois indicados que trazem o assunto à tona: o diretor Yance Ford foi indicado para Melhor Documentário com o seu longa Strong Island. Já na categoria Melhor Filme Estrangeiro, o longa chileno Uma Mulher Fantástica figura como um dos indicados para ganhar a estatueta. O filme conta a história de Marina Vidal, uma cantora que sofre uma série de constrangimentos após a morte de seu namorado, não tendo respeitado o seu momento de luto.

Certamente a pauta introduzida pelo diretor Sebastián Lelio é deveras sensível. Seu filme, A Mulher Fantástica, destaca as simples relações da vida de uma mulher transexual, que enfrenta a cada dia novos desafios que tem como base o preconceito diante da sua identidade. Ele trata das condenações que duas pessoas sofrem quando encaram um amor que foge dos padrões da sociedade moderna. Com uma série de enredos envoltos no falecimento de seu parceiro, Marina mostra sua força e luta pela possibilidade de ser e amar sem sofrer nenhuma agressão por isso.

E assim, o filme questiona a normatividade pregada por tantos: por que importa o conteúdo entre as pernas de Marina tão mais que importa o das outras mulheres? Por que esse assunto deixa de tornar-se pessoal de uma hora para outra? A quem interessa o que se passa sob os lençóis de um casal adulto que tem uma relação consensual? E acima de tudo: por que uma pessoa deixa de ter direitos básicos como todas as outras só por causa de sua identidade de gênero?

Em uma síntese de todas essas questões, a produção do influente cineasta chileno Pablo Larraín traz consigo uma pesada carga emocional e um grito pelo direito básico de existir. Marina é apenas um nome fictício entre uma quantidade absurda de mulheres que não tem a possibilidade de amar sem ter questionada toda a sua história, sem sofrer das mais fortes violências. Daniela Vega, a atriz por trás da fortíssima personagem, subirá no palco do Oscar com o papel de apresentadora. Mas sua presença carregará um simbolismo além da pura apresentação. A atriz transexual representará um número inimaginável de mulheres que tiveram suas carreiras prejudicadas pela resistência de ser quem elas são. Dois anos depois do caso de Anohni, a Academia se vê impossibilitada de esconder essa representatividade. Se levará a estatueta pouco importa, pois enfrentará fortes concorrentes que também propõem a desconstrução de padrões. O que importa é o destaque de Uma Mulher Fantástica, que não é uma simples publicidade gerada pela Academia, mas sim um filme latino-americano sobre uma mulher trans conquistando a crítica e o olhar de boa parte do mundo.

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