“Mano, você tem que ver essa série! Tem um personagem LGBT!” Foi com essas palavras que eu fui convidado pelo meu irmão mais novo ao universo de Everything Sucks, a nova série teen ambientada nos anos 90 da Netflix. Temos uma enxurrada de novas séries que se passam nos anos 80 ou 90, então Everything Sucks nem tinha entrado no meu radar. Parecia mais uma série genérica que tentava explorar minha nostalgia. Ledo engano, meus amigos. Everything Sucks consegue se destacar com louvor. É a história mais honesta sobre como é descobrir a sua homossexualidade e aprender a lidar com isso em meio ao turbilhão que é a adolescência.

Espere uma carga emocional imensa desses dois

Não é uma droga

Não se deixe enganar pelo comecinho da série. O primeiro episódio deixa a entender que vai ser aquela série que o protagonista vai se apaixonar pela garota popular que vai mostrar que não quer se relacionar com ele, mas que ele vai conseguir mudar sua ideia por meio de insistência e sendo um “cara legal”. Esse não é o tipo de série que Everything Sucks é. A série tem uma mensagem importante que quer passar e uma jornada muito bem definida de aceitação e auto-conhecimento que vale a pena ser assistida.

Everything Sucks se passa nos anos 90 e acompanha a vida de Luke que acabou de entrar para o Ensino Médio da Boring High. Ele acaba entrando para o clube de TV da escola onde conhece Kate e desenvolve um interesse pela garota. Ele está convencido de que ela gosta dele, mas ele não sabe que Kate é lésbica e é aí que a história começa a se desenvolver.

Poucos dos personagens secundários não são clichês

Um Oasis de aceitação

Não é difícil perceber que o show está comprometido a contar a história de Kate e todos personagens que orbitam a sua história são muito bem construídos, com qualidades bem definidas e atitudes que não fogem da sua caracterização. Os outros personagens entretanto são meros esteriótipos dos anos 90 que estamos cansados de ver. Temos o nerd à la Big Bang Theory, o alívio cômico, o garoto popular que é meio bad boy… Inclusive, o bad boy Oliver é tão parecido com o Steve de Stranger Things, o que só torna os clichês mais expostos. Não há o que reclamar nas atuações, mas os personagens em si deixam a desejar um pouco.

Surpreende bastante a atuação de Peyton Kennedy. A jovem de 14 anos destrói no papel de Kate. Não importa o que a personagem esteja fazendo ou o quão contraditório possa parecer suas ações, suas expressões sempre mostram claramente como a personagem se sente por dentro. A atriz não desaponta em cena, seja em suas calorosas brigas com Luke (personagem de Jahi Di’Allo Winston) ou no catártico show de sua artista favorita. Muito do que a série tem a dizer é dito nas entrelinhas, com os olhares e reações de Kate ao mundo ao seu redor, o que deixa a história mais intimista e sincera.

Luke também é um personagem bem profundo e a escalação de Jahi Di’Allo para o seu papel foi bastante acertada. Jahi é negro, mas Luke poderia ter sido interpretado por qualquer outro ator porque a cor do personagem não o define. Sempre estamos muito preocupados com os conflitos de Luke e como suas ações interferem Kate, mostrando que o personagem tem muito mais a oferecer que sua cor de pele. A escolha de um ator negro para o protagonista e tratar raça de uma forma tão corriqueira é ótima, especialmente com Pantera Negra e Seven Seconds saindo agora. Nem todo personagem negro precisa ser uma afirmação política. É importante que ambos tipos de personagens existam para que possamos não só ver os problemas que os negros tem que lidar, mas também que tipo de pessoa eles são.

It’s a beautiful life, oh oh oh…

Outra decisão deliberada que agrega bastante ao show é sua ambientação. Ele se passa nos anos 90 sim, mas desta vez não para explorar nossa nostalgia. A série começa bem quando Bill Clinton assinou o Ato em Defesa ao Casamento, que definia casamento como a união entre um homem e uma mulher. Os anos 90 em geral ainda era uma época onde sexualidade, especialmente qualquer manifestação não heterossexual, ainda era um grande tabu e é interessante ver a influência do contexto histórico em todos os personagens. Não haviam muitos exemplos positivos de LGBTs na televisão e esta desinformação impacta bastante as ações de todos os personagens, principalmente Kate. A época foi escolhida a dedo para a história ter mais impacto.

It’s a beautiful life?

De quebra, ganhamos uma trilha sonora de dar inveja com a ambientação retro. Espere músicas deveras populares, como clássicos do Oasis e outros sucessos dos anos 90. A trilha, inclusive, é em muitos momentos utilizada para desenvolver a história de modo bastante eficiente. O destaque fica para a música Beautiful Life, que abre o episódio 8 da série definindo um clima bem alegre e descontraído e fecha o mesmo episódio com um contraste bastante interessante.

Por fim, é bonito ver a série tratar tantos tabus de uma maneira bastante natural e trazer isso para um público mais jovem. Além de tratar a homossexualidade do mesmo modo que trataria a heterossexualidade, a série ainda explora as dificuldades dos pais solteiros, os perigos de depositar sua auto-estima em outra pessoa e até masturbação feminina. A série lança mão do que for necessário para trabalhar cada cena e o resultado é ótimo.

Conclusão

Everything Sucks! é uma ótima surpresa da Netflix. A série consegue balancear bem comédia e drama com a devida leveza esperada de uma série teen. Os personagens principais são surpreendentemente bem construídos, cheio do camadas e bem críveis como adolescentes em geral. Infelizmente o mesmo não pode ser dito para maior parte do elenco, mas você acaba tão investido no drama de Kate que isso não chega a incomodar. É uma ótima série para entender as dificuldades de ser LGBT em uma época ainda mais opressora que os tempos atuais.

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