Owlboy é um jogo que subverte bastante as expectativas de heróis e brinca com a moralidade dos vilões de uma maneira curiosa. De primeira pode até parecer aquela clássica história de protagonista inocente, mas Owlboy mexe tanto nessa fórmula que acaba se tornando algo próprio e diferente. Não é só na estrutura narrativa que Owlboy é disruptivo, isso se repete tanto sua música como em sua estética. Ressignificando o que é um jogo em pixel art, este é o jogo mais marcante da nova era hi-bit.

Era uma vez um desperdício de espaço chamado Otus

Owlboy é uma mistura entre fantasia e sci-fi que pode até ser considerado uma fábula moderna. Espere encontrar corujas e insetos humanoides ao lado de autômatos criados por uma civilização antiga de corujas. Mesmo num mundo tão fantástico, você é só um humano a qual foram depositadas muitas expectativas e que, apesar de realizar feitos incríveis para um humano ordinário, nunca consegue alcançar tais expectativas.

A premissa é simples, mas poderosa e pode ressoar com qualquer um: a decepção causada por altas expectativas. O medo de desapontar é um sentimento que muitos de nós compartilhamos em um mundo que sempre espera o nosso sucesso a cada nova tentativa e Otus, o protagonista de Owlboy, nos ajuda a lembrar que falhar é normal.

A ponta do iceberg

A todo momento o enredo do jogo aborda temas bastante importantes, mas que raramente são discutidos. A história aventuresca é a ponta do iceberg. Só prestar um pouco mais de atenção para notar que Owlboy põe em pauta diversas aflições sociais do mundo moderno. Fala dos males das expectativas, questões de identidade e aparências, a falácia do super herói e até beira discussões mais políticas, como a questão dos refugiados. Tudo isso não só a partir dos seus diálogos, mas de um uso intenso de elementos diegéticos.

Absolutamente tudo em Owlboy tem um porquê. Não só os elementos da sua profunda mitologia são muito bem explicados, mas também tudo que o jogador vê na tela existe dentro do contexto do jogo. Os tiros, por exemplo, ficam a cargo dos amigos de Otus e a habilidade de trocar de personagem quando quiser é explicado por um amuleto adquirido no começo da aventura. Esses elementos são utilizados tanto para garantir uma maior imersão do jogador naquele mundo, quanto para abordar temas paralelos de uma maneira ainda mais efetiva que os próprios diálogos conseguem.

Uma aventura econômica

Apesar de ser vendido pelos produtores como um jogo de plataforma, Owlboy se comporta muito mais como um RPG de ação. Muito provavelmente só não divulgaram ele como um RPG de ação devido a sua curta duração. O enredo do jogo vai se arrastando bastante pelas primeiras horas e quando finalmente parece que o jogo vai começar de vez, ele já está acabando. Um dos maiores charmes do jogo está em seus personagens e infelizmente o jogo termina bem quando você está começando a se apegar a eles.

Explorar os amplos e interconectados mapas do jogo dão alguma sobrevida ao jogo, mas a exploração não é tão incentivada já que o jogo não dispõe de nenhum mapa para você se localizar. Ele também não se preocupa em te lembrar dos objetivos. Se você decidir salvar o jogo para voltar alguns dias depois, se prepare para se perder um pouco. É um pouco frustrante você acabar se perdendo em um jogo tão linear apenas por não saber que caminho seguir, algo que seria facilmente corrigido se fosse possível ver seu objetivo atual no menu do jogo. É aí que o design econômico do jogo mostra suas falhas.

A arte transgressora do pós-retro

A primeira vista, a pixel art de Owlboy pode te levar a pensar que este é um jogo retro que tenta emular o estilo dos jogos da era do Super Nintendo. Um olhar mais atento, entretanto, revela que Owlboy pretende fazer exatamente o oposto. Ao invés de se limitar por amarras nostálgicas do passado, o D-Pad Studios prova que com as tecnologias de hoje é possível ir muito além usando pixel art.

Nada de 8, 16 ou 32 bits aqui. Owlboy nasceu na era hi-bit e lança mão de quantos bits forem necessários para pintar suas mais belas cenas de cair o queixo. A abundância de pixels gera uma quantidade incrível de detalhes que impressiona os fãs de pixel art. Este jogo é a grande prova que se antes eramos limitados pela tecnologia, agora somos limitados apenas por nossa criatividade.

A música é outro ponto que distancia Owlboy de outros títulos do passado. Aqui temos deliciosas melodias limpas e orquestradas, bem diferente do som sintético que estamos acostumados a ouvir junto a este estilo visual. Em muitos momentos, dá pra ouvir cada instrumento distinto. As músicas não brilham apenas em execução, mas também na composição. A trilha sonora do jogo em geral é muito boa. As músicas do clímax, em especial, são bastante memoráveis e a música da batalha final é potencialmente uma das melhores que eu já ouvi.

Conclusão

Owlboy é um jogo bastante revolucionário e que cumpre exatamente o que se propõe a fazer: mostrar que pixel art nos jogos pode ser usado muito além da nostalgia. O jogo consegue ser diferente não só em toda sua parte artística, mas também nos temas abordados por sua narrativa. Infelizmente, toda sua inovação não conseguem remediar o ritmo bastante quebrado de todo o jogo. Owlboy, assim como a maioria das melhores coisas da vida, termina muito cedo e te deixa com aquele gostinho de quero mais.

Jogo analisado com código cedido pela D-Pad Studios

 

 

A corte das corujas

8.5
Hino

Mesmo com problemas de ritmo, Owlboy é uma aventura que merece ser vivida por todos fãs de plataforma. A liberdade de tomar os ares é muito satisfatória. Infelizmente o mundo não incentiva tanto a exploração quanto deveria. Os personagens secundários são complexos, cativantes e adicionam bastante a jogabilidade. 

8.5
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