É difícil analisar Pantera Negra sem pensar em todo o contexto que o filme se insere. É o primeiro filme de um herói negro, com um elenco majoritariamente negro e dirigido por um diretor negro. Dizer que é um filme feito por negros para negros é pouco. Mesmo um olhar menos atento revela um filme que tem muito a dizer a quem quiser escutar. Pantera Negra surpreende pela franqueza em que aborda o racismo e o colonialismo ao mesmo tempo que entretêm seu público com suas piadas bem dosadas. É certamente um dos filmes mais bonitos, interessantes e diferentes que o Universo Marvel já produziu.

Uma disputa ideológica

Minhas expectativas com Pantera Negra eram sinceramente bem baixas, se tratando de um filme do Marvel Studios. Mesmo sendo conhecido pelos seus filmes de qualidade já atestada, o estúdio vem falhado constantemente em mostrar algum drama mais significativo. A ansiedade por piadas sempre estragava qualquer potencial dramático que seus filmes poderiam ter e o ápice disso foi em Doutor Estranho. Pantera Negra, por outro lado, traz assuntos bastante sérios e o filme os trata com a seriedade que eles merecem. Nada de uma piadinha cortando um discurso sério. O filme ainda tem as piadinhas obrigatórias de todo filme da Marvel, mas ele sabe a hora de brincar e a hora de falar sério.

Pantera Negra mostra a ascensão de T’Challa ao trono de Wakanda após os eventos de Capitão América: Guerra Civil. Entretanto, além de focar no herói, o filme consegue desenvolver muito bem também o vilão Killmonger. Michael B. Jordan está fenomenal no papel do vilão, contrariando todas as expectativas. A escrita também consegue entregar como nenhum outro filme da Marvel. Killmonger é tão importante para a mensagem e o progresso do filme quanto o próprio T’Challa e a química entre os atores é bastante sincera.

O embate entre T’Challa e Killmonger vai muito além do antagonismo plano que estamos acostumados a ver nos filmes de super heróis. É interessante perceber que as suas diferenças nem são tanto filosóficas e sim na abordagem. Killmonger não é um vilão mal que quer causar o caos por ser mal. As motivações dele são bastante nobres e podem ser identificadas por qualquer pessoa negra. Ele só almeja um mundo sem racismo e é importante notar como filme não o desumaniza em momento algum. A complexidade do personagem é surpreendente e o coloca facilmente como um dos melhores vilões, senão o melhor, de todo MCU.

Lente negra

É interessante notar toda preocupação do filme em levar o protagonismo aos negros. Isto não se reflete apenas no elenco majoritariamente negro, mas também na brilhante trilha sonora e principalmente no jeito em que o filme retrata o racismo. Completamente sem filtros, o filme retrata a realidade sempre que pode e também levanta discussões de como enfrentar o racismo. O maior debate do filme é como os negros em uma maior posição de privilégio (no filme representado pelo povo de Wakanda) pode ajudar a combater o racismo. Pelo seu roteiro e desenvolvimento de personagens, o filme mostra que omissão é o verdadeiro vilão na luta contra o racismo.

Falando em Wakanda, ela está linda. Apesar dos efeitos especiais não entregarem tanto quanto se espera de um filme com tamanho orçamento, o que o filme não entrega visualmente na questão da cidade ele entrega na mitologia por trás dela. Toda a história de Wakanda é explicada de uma maneira bastante ágil e didática. Todas as tribos e personagens que habitam aquele mundo parecem bem reais e são tantos personagens únicos que é impressionante como todos se mostram tão cativantes e bem escritos.

Raízes africanas

O figurino com certeza foi bastante importante para trazer o povo de Wakanda a vida e as roupas são autênticas e coloridas, como esperado de um país de cultura africana. Todo visual do longa é bastante afrofuturista, utilizando bastante de tons de roxo para agregar um tom místico a trama. A trilha sonora também ajuda o filme a se destacar dentro do MCU. Pantera Negra de longe é o filme que melhor utiliza música para construir o seu tom. Seja no ritual de coroação, em uma perseguição de carro ou até mesmo na batalha final, a trilha sonora se faz presente e não some como parte do cenário.  A trilha sonora é muito boa e fica a cargo de Kendrick Lamar, mostrando forte inspiração do rap afro-americano e também marcada por instrumentos tipicamente africanos.

Para aqueles preocupados que Pantera Negra tenha muitos discursos e pouca luta, não temam. As lutas do filme são de tirar o fôlego, bastante diversificadas e bem coreografadas. Os planos ora são muito abertos, ora muito fechados, mas sempre as lutas são bastante fluidas. O destaque vai para qualquer luta que envolva as Dora Milaj, em especial Okoya. Danai Gurira, a Michonne de The Walking Dead, mete a porrada em qualquer um que entra na sua frente e tem uma presença de tela impressionante, dentro e fora das lutas.

Conclusão

Pantera Negra era o filme que eu não sabia que precisava. Seja branco ou negro, o filme nos convida a repensar nossos privilégios e a fazer a diferença. O filme está cheio de discursos bastante impactantes que só ressaltam a mensagem transmitida por todos os arcos do filme. Felizmente, o filme parece muito mais preocupado com sua mensagem que em cumprir uma tabela de continuidade para o MCU. Bem humorado e ao mesmo tempo bastante dramático, Pantera Negra é o filme mais diferente da Marvel e isso acaba o tornando um dos melhores também.

 

Wakanda Forever!

10.0
Hino

Pantera Negra é um filme excepcional que consegue trazer reflexões sérias e impactantes sobre o racismo, introduzir todo um micro-cosmo de tribos africanas além de trazer tudo que o Universo Marvel sabe fazer de melhor. Muito humor, muita ação e atuações de alto nível. Não é a toa que foi o primeiro filme de herói indicado ao Oscar de Melhor Filme.

10.0

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