Uma memória sentimentalista traz novamente à tona a representatividade LGBT+ na corrida para os maiores prêmios do cinema americano. Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino, muito difere do vencedor do Oscar Moonlight, de Barry Jenkins, mas a comparação torna-se inevitável devido ao sucesso de ambos no cenário do cinema mundial. Em contraste com o brado de representatividade de Jenkins, o longa de Guadagnino figura como um sussurro romântico; uma homenagem ao cinema de Renoir, Rivette, Rohmer e Bertolucci, que chega aos cinemas brasileiros sob o título Me Chame Pelo Seu Nome no dia 18 de Janeiro.

A história se passa no verão de 1983, no norte da Itália; Elio Perlman (Timothée Chalamet) passa suas férias na casa de veraneio da família, transcrevendo e tocando música clássica, lendo livros e nadando nos rios do vilarejo na companhia de sua amiga Marzia (Esther Garrel). Ele desfruta de um bom relacionamento com seus pais – um professor e uma tradutora – que lhe proporcionam um contato direto com a forte educação e cultura dignas da aristocracia europeia. E é por meio do trabalho do Sr. Perlman que Oliver (Armie Hammer), um jovem graduando americano, chega à sua casa para passar o verão trabalhando em um projeto arqueológico. Embora a sofisticação e a capacidade intelectual de Elio demonstrem que é praticamente um adulto, a proximidade dos dois revela a sua inocência frente a assuntos de deveras importância, entre eles as complicações do amor.

O filme é baseado no livro homônimo de André Aciman, que lhe rendeu o Prêmio Lambda de Literatura por Melhor Ficção Gay – o prêmio tem como missão celebrar a literatura LGBT+ e prover recursos para autores, leitores, livreiros e toda a comunidade literária. Ele é concedido anualmente desde o ano de 1989, e já premiou nomes como Alison Bechdel e Benjamin Alire Sáenz.

O roteiro ficou à responsabilidade de James Ivory, indicado três vezes para Melhor Diretor pela Academia e cuja parceria com seu cônjuge Ismail Merchant e a escritora Ruth Prawer Jhabvala renderam seis Oscars. O trabalho em conjunto de Ivory com Guadagnino se concluiria em uma co-direção, porém ele preferiu se desligar da produção por achar impraticável a ideia de dois diretores em um só set. A versão original de Ivory continha um número maior de cenas de nudez, porém Guadagnino ao revisar considerou-a um filme cujo orçamento não constava com a realidade do mercado. Mais tarde, em uma entrevista ao The Hollywood Reporter, o diretor disse que com mais nudez o tom do filme seria completamente diferente do que procurava. Ele declarou que queria o público “confiasse totalmente na viagem emocional dos personagens e sentisse o primeiro amor”; e queria também passar a ideia de que “a outra pessoa lhe faz bonita – te ilumina e te eleva. (…) E receber o outro é uma coisa fantástica de se fazer, particularmente nesse momento histórico”.

É ambientado nos anos 80, ao som do new wave e da música pop eletrônica que essa história de amor se desenvolve. A decoração foi inspirada em um grande trabalho de pesquisa realizado na cidade de Crema; a equipe contou com a ajuda dos próprios habitantes, ao entrar em suas casas e analisar suas fotografias da época. Já os figurinos foram inspirados pelos filmes do grande diretor da Nouvelle Vague Éric Rohmer, especialmente nos longas Pauline na Praia (Pauline à la plage, 1983), Conto de Verão (Conte d’été, 1996) e Conto da Primavera (Conte de printemps, 1990). A quantidade de referências com certeza é um divisor de águas para a ambientação do filme, que muito embora nos dê a sensação da vida na Itália oitentista, se mostra com uma modernidade gritante nas atitudes e pensamentos.

O processo de filmagem foi caracterizado por uma forte intimidade entre os atores e a equipe. Armie Hammer e Luca Guadagnino trocaram juras de amor nos jornais, incluindo um comentário de Hammer que dizia nunca ter ficado tão íntimo de um diretor. Mas o destaque do longa fica nas mãos do jovem ator Timothée Chalamet, que surpreende no protagonismo do filme. Sua naturalidade no papel e a química com Hammer lhe renderam indicações no Globo de Ouro e Critics Choice Awards, em meio a um grupo seleto de veteranos hollywoodianos, como Tom Hanks e Gary Oldman. A crítica internacional também recebeu feliz a sua atuação e não é por menos, Chalamet é o charme da produção, a chave de ouro para completar a sutileza atraente do filme.

Mas o que me faz conectar o longa ao premiado Moonlight? Call Me By Your Name é, em oposição ao filme de Jenkins, uma história sobre entregar-se a joie de vivre, de viver as suas paixões antes que não haja mais tempo ou que o corpo não tenha mais capacidade de viver todas as emoções. É uma obra representativa que não se restringe nesse meio, mas se afunda na complexidade de seus personagens e cria uma linda obra de romance acima de qualquer orientação afetiva. Um ode ao romantismo e a juventude, nas mãos atenciosas de uma equipe envolvida emocionalmente com o cinema.

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