Assim como o sexo, ainda é um grande tabu na sociedade ocidental falar sobre a morte. Sempre atrelada a coisas negativas, ainda hoje temos dificuldades em admitir a morte como um estágio natural da vida. Como toda plataforma artística, os videogames são um produto da sociedade em que estão inseridos e, sendo assim, eles também evitam pensar sobre morte. Geralmente, os jogos tentam inclusive ressignificar a morte como um simples objetivo a ser cumprido ou uma punição por consecutivas falhas. Quando um jogo decide discutir maduramente sobre o assunto e retratar a morte com naturalidade, pode se preparar para uma experiência engrandecedora.

O jogador ficará de cara a cara com a morte o tempo todo no jogo

Este jogo é A Mortician’s Tale. Com um encantador gráfico low-poly, temos um jogo simples e sereno onde encarnamos o papel da tanatopraxista Charlie (calma que eu já explico) que acabou de começar em um novo emprego. A função de Charlie é receber os cadáveres e prepará-los para o funeral de acordo com os desejos de sua família. Após preparar o morto, você deve ainda participar da cerimônia onde você pode conhecer um pouco mais da família do falecido.

O jogo é bem simples e podemos dividi-lo em três partes principais: ler e-mails, preparar o morto e atender ao funeral. Toda “missão” começa com a Charlie lendo seus e-mails. Aqui conhecemos todo elenco do jogo e vemos a história aos poucos se desenvolver. Os amigos de Charlie são cheios de personalidade e nos apegamos muito facilmente a cada um deles.

Apesar de opcionais, os e-mails contam toda história do jogo

Além de interagir com amigos, temos a chance de aprender um pouco mais sobre o que levou o nosso cliente a óbito. O jogo aproveita para levantar alguns questionamentos éticos que vão realmente gerar discussões. Sempre um dos e-mails vai explicar qual procedimento fazer no morto. Depois de ler tudinho, é a vez de preparar o corpo.

O jogo não poupa detalhes  nesta parte e vai pedir que você realize diversas tarefas, desde limpar o corpo até drenar todos seus fluidos. A direção de arte ajuda bastante aqui, pois os visuais cartunescos ajudam as cenas nunca ficarem muito pesadas. O jogo não apresenta desafios e isto é bastante intencional. Não existe pontuação de qualquer tipo ou um cronômetro a ser batido. O foco aqui é puramente na experiência e o jogo evita ao máximo qualquer coisa que possa te distrair dela.

O maior problema aqui é que esta é a etapa que concentra praticamente toda jogabilidade e ao decorrer do jogo ela não apresenta nenhuma evolução ou variedade, o que torna as coisas repetitivas e automáticas bem rápido. Os funerais abertos são bem complexos e interessantes por si só e manterão as coisas interessante por um tempo. As cremações, por outro lado, são as mais comuns e são tão simples que você já vai ter acabado antes de perceber o que está acontecendo.

O visual cartunesco e as cores frias ajudam o jogo a nunca entrar em território gore

Por fim, Charlie atende ao funeral do morto e aqui podemos interagir com a família do falecido. É bem interessante ver como A Mortician’s Tale se esforça para representar os mais diversos modos que as pessoas lidam com o luto. Temos as pessoas que não conseguem chorar, as que fazem perguntas impróprias e até as que se culpam pela morte do seu ente querido. Os diálogos são tão naturais que qualquer jogador que tenha sofrido alguma perda na vida conseguirá se identificar. A interação com a família apesar de curta e rasa culmina em um dos momentos mais impactantes do jogo, já perto do final.

O jogo é bastante curto e ele se beneficia da curta duração. Ele termina no momento certo em que o jogador está entretido e as mecânicas ainda não enjoaram completamente. Mesmo com sua curta duração, o jogo ainda acha tempo para abordar outros tópicos paralelamente, como a diversidade e uma crítica ao corporativismo que visa lucro sem nenhum escrúpulo.

Feito por um estúdio majoritariamente composto por mulheres queer, é interessante ver que elas conseguiram incorporar isto ao jogo de modo orgânico e nada intrusivo. Personagens negros também são encontrados aos montes, mas acabam expondo um defeito do jogo que é a reciclagem de modelos de personagens à exaustão. Em contrapartida, é visível o cuidado na escolha da paleta, composta quase que exclusivamente de tons de roxo, para passar uma permanente sensação de tranquilidade que é ainda mais realçada pela música de fundo super serena.

Os funerais são um ensaio de como diferentes pessoas lidam com o luto

A Mortician’s Tale é um bom jogo para repensar o modo que lidamos com a morte. Mesmo que com mecânicas repetitivas, o jogo faz um ótimo trabalho em não ser condescendente com o jogador e usa de diversos artifícios para garantir que ninguém fique muito desconfortável. Além de visuais incríveis, o jogo se destaca por sua escrita simples e elegante. É um jogo extremamente curto, mas isto acaba como a morte em si, isto não é algo necessariamente negativo.

A Mortician’s Tale foi cedido gentilmente pela Laundry Bear para análise na Steam
Show Full Content
Previous Dynasty: O novo sucessor espiritual de revenge
Next Dôssie Finn e Poe! Será que temos o primeiro casal gay dos filmes de Star Wars?
Close

NEXT STORY

Close

Gamescom ’17: THQ Nordic anuncia Biomutant e mais

23 de agosto de 2017
Close