Machado de Assis, Gabriel García Marquez, José Saramago, Jorge Amado, Edgar Allan Poe, Franz Kafka, William Shakespeare, George Orwell. O nome desses escritores sempre está presente em listas que pipocam pela internet sobre autores ou clássicos da literatura que não podemos deixar de ler. Em uma ou em outra lista, vislumbramos nomes como Clarice Lispector, Jane Austen, Isabel Allende ou Chimamanda Adichie. Nessas listas, assim como nas nossas estantes, livros de mulheres escritoras são minoria numa variedade imensa de livros escritos por homens.

E isso é perceptível em outros espaços da literatura. O Prêmio Jabuti, o prêmio literário mais importante do Brasil, acontece desde 1959 e, em suas 58 edições, apenas 11 mulheres ganharam o prêmio de melhor romance. O Prêmio Nobel de Literatura, prêmio concedido desde 1901, já foi entregue para 113 escritores, sendo que apenas 14 são mulheres: o que corresponde à 12% dos vencedores. Dos 29 vencedores do Prêmio Camões, apenas 6 são mulheres. Dos 40 membros da Academia Brasileira de Letras, 5 são mulheres. As escritoras também eram minoria da FlipFeira Literária Internacional de Paraty – até a última edição em julho deste ano, quando, pela primeira vez, as mulheres foram maioria na feira.

Lygia Fagundes Telles, uma das mulheres da Academia Brasileira de Letras

Conhecendo esse cenário onde mulheres lutam para participar do mercado editorial dominado por homens, a escritora inglesa Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014). No Brasil, o movimento começou em 2015, organizado por Juliana Gomes, Juliana Leueroth e Michelle Rodrigues. Foi com o intuito de incentivar a produção, a publicação e a divulgação de livros escritos por mulheres que o projeto foi organizado aqui no Brasil.

Segundo o site do Leia Mulheres, o projeto, que começou em São Paulo e no Rio de Janeiro, atualmente acontece em 61 cidades brasileiras, em 21 estados brasileiros e o Distrito Federal. A ideia é montar grupos de leitura para promover discussões levantadas pela leitura dos livros.

Em Uberlândia, interior de Minas Gerais, os encontros do Leia Mulheres acontecem mensalmente desde março desse ano. Hibisco Roxo, da Chimamanda Adichie, A cabeça do santo, da Socorro Acioli e Frankenstein, da Mary Shelley, foram alguns dos livros lidos nas reuniões da cidade.

Kathleen Loureiro, estudante da graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia, já participou de algumas reuniões e avaliou como positivas as atividades do Leia Mulheres na cidade. Durante nossa conversa, Kathleen revelou que nem todas autoras escolhidas pelo grupo são necessariamente engajadas com o feminismo: a única obrigatoriedade é que o livro tenha sido escrito por mulheres. “Eu acho que a principal ideia do Leia Mulheres é você ler mulheres que vão escrever desde ficção científica até novela”, explicou.

Ela também revelou que, a partir das leituras dos livros no grupo, é possível perceber como as mulheres compreendem a sociedade patriarcal de uma maneira completamente diferente de um homem: e, assim, a leitura de autoras mulheres torna-se essencial para compreendermos o mundo pelo ponto de vista feminino.

Sobre o entrelaçamento entre literatura, feminismo e o Leia Mulheres, ela considera que as discussões nas reuniões têm levantado questões fundamentais que fazem parte da pauta do feminismo, como aborto, violência e liberdade sexual. A estudante avalia que o projeto pode ter um efeito positivo na comunidade ao incitar essas discussões tanto dentro quanto fora do grupo. Kathleen disse que algumas professoras do Ensino Básico participam das reuniões e ela diz que elas podem levar esses temas pra dentro da sala de aula. Mas, ah, é importante frisar que nem só mulheres participam das reuniões: homens também participam dos encontros!

Outro ponto importante do Leia Mulheres levantado pela entrevistada é a capacidade do projeto de mostrar que mulheres são capazes de fazer o que quiser, inclusive escrever qualquer tipo de histórias: “E, se o livro for ruim, não é porque você é uma mulher. É porque você não escreve bem”.

Por fim, a pedido meu, Kathleen deixou algumas indicações para quem quiser incluir mais mulheres na sua estante: e ela deixou claro que adora as brasileiras. Primeiro, os livros de Hilda Hilst O caderno rosa de Lory Lamby, A obscena senhora D. e Rato no muro; o livro de contos da mineira Conceição Evaristo, Olhos D’água; e, por fim, A boca do Inferno da Lygia Fagundes Telles.

Além dessas indicações, para quem quer começar nessa jornada de ler mais mulheres, uma boa ideia é conferir a Coleção Folha – Mulheres na Literatura, que tem publicado semanalmente livros escritos por mulheres de várias nacionalidades, como a brasileira Nélida Piñon, a inglesa Agatha Christie ou a indiana Thrity Umrigar.

Mas, pra simplificar sua vida, decidi fazer uma pequena lista de alguns livros escritos por mulheres que podem ser o pontapé inicial. Nessa lista, decidi incluir tanto livros considerados clássicos quanto os best-sellers atuais, que nem sempre ganham tanto crédito. Acredito que independente do gênero ou do formato do livro, é importante que conheçamos a perspectiva de mulheres (e outros sujeitos além do homem branco heterossexual europeu) sobre o mundo e a literatura.

  1. A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Publicado originalmente em 1982, o primeiro romance de Isabel Allende conta a história de três gerações da família de Esteban Trueba. O livro é protagonizado por três mulheres – Clara, Blanca e Alba – que precisam lidar com dramas familiares e períodos conturbados da história do Chile. A versão cinematográfica do livro é protagonizada por Meryl Streep e Glenn Close.

  1. Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Jogos Vorazes é o primeiro livro da série escrita por Suzanne Collins que se tornou uma das franquias mais bem-sucedidas do cinema. Jogos Vorazes, Em Chamas e Esperança são ambientados num futuro distópico, onde a população precisa se submeter a jogos anuais que colocam adolescentes para lutar até a morte. Os livros são narrados por Katniss Everdeen, uma garota de 16 anos, que participa do 74ª dos Jogos Vorazes e torna-se símbolo de uma luta contra um governo autoritário e opressor de Panem.

  1. O Conto da Aia, de Margareth Atwood

Esse livro da canadense Margareth Atwood foi publicado originalmente em 1985 e ganhou notoriedade nos últimos meses desde que foi adaptado para a TV com o título original em inglês: The Handmaid’s Tale. A série ganhou 6 estatuetas do Emmy Awards 2017, incluindo melhor roteiro, direção e série dramática. O livro trata de um futuro distópico, quando um regime totalitário funciona no que antes eram os Estados Unidos. A maioria das mulheres desse país destruído pela guerra é infértil. Por isso, algumas mulheres tornam-se propriedade do governo para uma única função: procriar. Essa ficção científica trata, além de outros temas, de liberdade, direitos civis, política e sexo.

  1. O assassinato no Expresso do Oriente, de Agatha Christie

O assassinato no Expresso do Oriente é o 14º romance da escritora inglesa Agatha Christie, conhecida como A Rainha do Crime. O livro publicado originalmente em 1934 é protagonizado pelo detetive Hercule Poirot que precisa desvendar o assassinato de um dos passageiros do trem expresso: um homem que acumulou muitos inimigos durante sua vida. Assim com outros romances dessa autora, o final é surpreendente. Uma das versões cinematográficas do romance estreia em novembro de 2017, com Penélope Cruz, Judi Dench e Michelle Pfeiffer.

  1. A Garota no Trem, de Paula Hawkins

Esse livro da Paula Hawkins foi o 6º livro mais vendido no Brasil em 2016. O livro ganhou visibilidade depois do anúncio da sua adaptação para o cinema, com Emily Blunt no papel principal. Esse é um mistério policial protagonizado por Rachel, uma mulher que tem problemas de alcoolismo desde o fim de seu casamento. Pela janela de um trem, Rachel é testemunha ocular de uma cena suspeita envolvendo Megan que, dias depois, é tida como desaparecida. O livro é narrado por Rachel, Megan e Anna, atual esposa do ex-marido da protagonista: três mulheres fortes que lidam com seus casamentos, suas carreiras e suas alegrias e frustrações de serem ou não serem mães.

  1. Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur

O livro da indiana Rupi Kaur tem estado na lista dos livros mais vendidos das últimas semanas: atualmente ocupa o terceiro lugar do pódio. Declaradamente feminista, Rupi Kaur trata, em seu livro, de temas como o sexo, a perda, o trauma e o abuso. Em inglês, o título do livro é Milk and Honey e foi publicado pela primeira vez em 2014.

 

Show Full Content
Previous Gaga: Five Foot Two – Crítica do Documentário
Next Lollapalooza 2018 terá Pearl Jam, The Killers, Red Hot Chilli Pepper e muito mais
Close

NEXT STORY

Close

Drag Race All Stars 3: O Retorno das Queens, De Novo

23 de março de 2018
Close