É inevitável! Todo ano que acontece Rock in Rio o mesmo discurso é repetido: “Rock in Rio é festival de rock! O próprio nome já diz! Só devia tocar rock.”

Nós realmente queremos acreditar que as pessoas amadurecem o suficiente para conseguirem perceber que o Rock in Rio nunca foi um festival exclusivamente de rock, mas sim de música. Se me dissessem que ele tinha um line-up predominantemente de rock, aí tudo bem, mas do contrário o argumento é errôneo e falho.

Não requer nem muito esforço para comprovar isso, só é preciso buscar as primeiras edições para notar que nem todos os cantores e bandas que se apresentavam eram de rock. Porém, é mais fácil sair propagando falacias na internet do que pesquisar um pouco mais. O que esperar quando se tem pessoas que ainda relutam em dizer que nunca existiu ditadura militar no Brasil? Esperar que elas busquem por informação sobre um festival de música, quando não conseguem pesquisar nem a história do próprio país, é querer demais.

Da esquerda para direita: Gilberto Gil, Elba Ramalho e Ivan Lins na edição de 85. 
Elba novamente em 91. Daniela Mercury e Sandy e Junior em 2001

Desde que Rock in Rio começou a anunciar as atrações da sua sétima edição no Brasil, um nome já era dado como certo: Anitta. Afinal de contas, queira sim ou queira não, há aproximadamente três anos seguidos, vem sendo o grande destaque da música nacional. Porém não foi dessa vez que a cantora figurou no festival.

Porém não ficou por isso mesmo. Carlos Medina, mentor do Rock in Rio, foi cobrado a respeito da não escalação da cantora para o time de atrações. Em entrevista ele disse: “Não tenho afinidade com a música dela, não achei que encaixava. […] Não tenho nada contra, estou conversando com ela. Almocei com ela outro dia e fiquei impressionado. Ela é uma empresária, tem uma visão de marketing.”

Com o cancelamento da participação de Lady Gaga, surgia então mais um oportunidade para que Anitta entrasse na lista de atrações. Porém mais uma vez, ela não foi escalada. A respeito disso, o jornalista Alexandre Matias chegou a publicar um excelente texto em seu blog. Não irei entrar no aspecto de que a organização já sabia ou não que Gaga não iria performar, pois me parece muito injusto abrir qualquer crítica a respeito, sem saber de fato o que aconteceu por trás dos palcos nos quesitos de organização, marketing e contratuais.

A própria Anitta chegou a se posicionar sobre o assunto. Lá em meados de março ela chegou a dizer que acreditava que esse veto a sua participação no festival se dava por conta do preconceito, mas ela foi muito direta no assunto: “Não gosta, não contrata”.

Quando esse preconceito musical vem do público, de alguma forma, ainda que errado, é compreensivo. Mas quando parte do próprio organizador do evento, dá margem para que o ato seja repetido. Inclusive pelos frequentantes do evento! Impossível esquecer da apresentação de Carlinhos Brown na edição do festival em 2001.

No Brasil, o argumento “nada contra, é só meu gosto pessoal” é muito utilizado. O que é muito compreensivo, afinal, ninguém é obrigado a gostar de todos os gêneros musicais. Porém, o gosto pessoal não pode de forma alguma ser parâmento de classificação do que é bom ou ruim, para um todo. Você não gostar de funk é permitido! Você querer proibir o funk no país, por você achar que ele não é tão bom quanto música clássica, não está permitido.

Não é questão de comparação de qual seguimento musical é melhor que o outro, é mais uma questão de lógica e compreensão. Sejamos sensatos, se você é abertamente contra um gênero musical, você é a última pessoa que tem o poder de dizer que ela tem ou não qualidade. Tal como se você só escuta um mesmo ritmo musical não é capaz de dizer que ele é melhor que o outro.

Esse preconceito enraizado vai além de somente gêneros e ritmos musicais, pois ele afeta ainda artistas nacionais. Por exemplo, em toda a historia de Rock in Rio no Brasil, somente uma única vez, uma atração nacional foi headline, Legião Urbana na edição de 1991. Ivete Sangalo já foi duas vezes headlinemas na edição Lisboa do festival. Nunca conseguiu o feito em seu próprio país.

Ou seja, um festival organizado e feito por brasileiros, sediado no Brasil, coloca os artistas nacionais em segundo plano, para dar espaço a artistas internacionais, que vem para solos tupiniquins onde muitos não se esforçam nem mesmo em aprender algo além de “obrigado”. Mas é um brasileiro pisar em outros países e somos obrigados a falar fluentemente o inglês, pois se não ainda viramos alvo de chacotas.

O perfil do público brasileiro é consumir bandas internacionais e menosprezar produtos nacionais. Criticarem o funk por ter palavrões, por ser vulgar, mas ouvir música internacional tão repletas de palavrões quanto e por vezes não saberem nem a tradução do que está sendo cantado.

Esse cenário está mudando? Sim. Lentamente, mas está mudando. Basta observar com mais atenção, line-ups de outros festivais, como estão mais diversificados e mais plurais. Por exemplo, um mesmo público ir a shows de Karol Conka na parte da tarde e a noite assistirem Florence and The Machine. Duas atrações de gêneros completamente distintos, mas tocando num mesmo festival, na edição de 2016 do Lollapalooza. Se o próprio publico começa a mudar, os eventos precisam se adequar também.

Uma prova disso é a participação de Pabllo Vittar no primeiro dia da sétima edição do Rock in Rio. A cantora que não se apresentou em nenhum dos palcos principais do festival, mas num espaço patrocinado por um banco, teve um publico maior que o de outro show que acontecia ali próximo, no palco sunset.

A participação de Pabllo não deu para quem quis, literalmente, já que o alcance sonoro do espaço onde cantava não era tão potente, dedicado a um publico menor, mas isso não impediu em nada pois onde o som não chegava, a multidão cantava junto ecoando a música. Obviamente o perfil de publico desse primeiro dia, se assemelhava bastante com o perfil de quem acompanha Pabllo Vittar, porém isso não diminui tamanho destaque que a drag teve.

Os eventos precisam se atentar que o público deixou de ser uma massa segmentada, que escuta somente um gênero musical. E o grande público precisa compreender que o fato de ele não gostar de determinado seguimento musical, não faz com que ele tenha menos qualidade.

Eventos com predominância musical não é um problema. O problema é se fechar para demais gêneros, os colocando em patamares de qualidade inferiores. Outros festivais já se atentaram a esse fato como é o caso do Villa Mix, que começou como um festival sertanejo, mas hoje abre espaço para o axé e o pop internacional, e do Festival de Verão de Salvador completamente voltado para o axé abrindo espaço para sertanejo, forró entre outros gêneros.

Outro quesito importante: a valorização do produto nacional. Não estou defendendo o fim da participação de artistas internacionais em grandes festivais no país, afinal de contas a proposta é ser plural. Mas sempre colocar artistas nacionais em palcos menores, ou como abertura de bandas internacionais, como se no Brasil não tivéssemos artistas com potenciais para segurar ser headline de um festival onde seu publico alvo são brasileiros precisa mudar. É preciso urgentemente parar com esse espírito de inferioridade em achar que tudo que vem de fora do país é melhor do que o produzido dentro do Brasil.

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