BoJack Horseman chegou à sua quarta temporada. Então, acho que chegou a hora de falar sobre o que me faz assistir essa série: o roteiro.

Uma original Netflix que à primeira vista parece apenas bizarra. Cavalos e cães humanoides vivendo no nosso mundo. Assumo que, para mim, essa estética foi difícil de aceitar. Não é um traço particularmente bonito ainda mais para apoiar essa proposta estranha. No entanto essa escolha parece fazer sentido, mas não vou analisar aqui a estética da animação. Apenas peço que não se deixem barrar por ela.

O que mantém BoJack no ar certamente é seu roteiro. E apesar de tantos pontos excelentes na série que merecem ser comentados, hoje vou falar apenas sobre o feminismo presente nessa animação.

oJack tem como protagonista um ator em decadência. Machista, bêbado, babaca, egocêntrico e nenhuma dessas características é enaltecida como sendo uma qualidade. É uma série marcada por personagens extremamente bem construídos. Alguns dos personagens que acompanham a jornada de autoconhecimento do nosso “herói” são mulheres.

As mulheres são, em geral, as personagens mais fortes dessa história. Bem resolvidas ou não, com seus dilemas e dúvidas e problemas gerais, elas são mais inteligentes (em alguns casos), trabalhadoras e focadas. Um dos motivos para que elas sejam assim é que deixam claro que vivem em um mundo machista, no qual para uma mulher se destacar ela precisa dar tudo de si.

As duas mulheres da série são Diane Nguyen, uma ghost-writer que logo se torna a melhor amiga de BoJack e Princess Carolyn, a agente do astro e sua ex-namorada(?). Sim, existem outras mulheres importantes e muito fortes na série mas apenas essas estão em todas as temporadas. É importante notar que essas mulheres, mesmo inteligentes e fortes não são perfeitas. Elas cometem diversos erros, possuem falhas, medos. São mulheres quase reais (mesmo que uma seja uma gata persa cor-de-rosa mas acho que me fiz entender).

Por diversas vezes essas duas personagens falam sobre ou demonstram sua fraqueza dentro da sociedade. E sua frustração em ter que se submeter aos homens ao seu redor, especialmente para manter suas carreiras. Existe inclusive o questionamento sobre até onde lutar e falar sobre seus direitos é válido e aceitável pela sociedade. O quanto elas devem lutar para manter suas famílias ou ao que devem renunciar para tentar conseguir uma. Diane por muitas vezes tem que abrir mão de suas convicções para agradar o namorado e manter seu relacionamento e/ou carreira dele enquanto Princess Carolyn por não abrir mão de sua própria carreira (de forma um pouco autodestrutiva inclusive) não consegue manter relacionamentos saudáveis e duradouros.

E mesmo quando estão com sua vida desmoronando é esperado dela uma atitude sempre racional, quando não maternal em relação aos outros personagens.

Também por essa história se passar em Hollywood (ou seria Hollywoo?) existem diversas representações sobre como a mídia trata a mulher expondo muito machismo presente na sociedade e nos meios de comunicação. Ainda que esse discurso seja carregado de humor e ironia ele está presente constantemente.

Três episódios me marcaram muito. Neles são abordadas questões delicadas sobre o universo feminino. Vou falar um pouco sobre cada um desses episódios, que não devem ser assistidos sem acompanhar o resto da animação.

CONTÉM SPOILERS

O episódio O lado escuro de Hank (s02 ep07) fala sobre uma celebridade, um ator, acusado por 8 ex-assistentes de abuso sexual (sim é claramente uma alusão a um caso conhecido). Nesse episódio as pessoas ficam revoltadas pela acusação, mas contra as mulheres que acusaram ou quem ousou falar sobre o caso (Diane).

Então vemos muitos discursos conhecidos sendo reproduzidos pelas pessoas e por jornalistas questionando se as mulheres não tem vergonha de estragar a vida de um homem dessa forma e questionamentos levianos como “mas quem são essas mulheres? Elas bebem? Elas usam shorts curtos?”. A insanidade da narrativa mostra questionamentos absurdos, com ironia e sátira forte, mas que são reais, infelizmente

O importante nesse episódio é como a mídia é retratada ao se esforçar para garantir a integridade de uma figura masculina independente do que ele tenha feito.

Existe uma cena muito forte em que Diane está conversando com a editora de uma revista e esta lhe diz para ser forte pois é uma mulher que está tentando derrubar um homem e que mulheres na sociedade não são queridas por ter opinião, apenas para serem belas. Porém, enquanto ela faz um discurso empoderador, ela desqualifica suas funcionárias por questões estéticas mostrando que tudo é questão de negócios, até que ela mesma retira apoio de Diane para manter seus patrocinadores.

Por fim, o que mostram finalmente é que múltiplas denúncias de abuso não são o suficientes para acabar com a carreira de um homem, afinal uma única palavra dele basta para silenciar diversas vozes. E, no entanto, denunciar um abuso pode ser o suficiente para acabar com a carreira de uma mulher.

O episódio Tat-Tat, Pum-Pum (s03 ep06) fala sobre um tema bastante delicado: aborto. Porém, mais do que o aborto em si, o discurso que vemos é sobre a mídia lidando com o assunto da escolha das mulheres sobre seu corpo. “Será que o conceito de mulheres terem escolhas fio longe demais?” seguido por um painel descrito como homens brancos de terno que não podem engravidar e portanto são as pessoas mais indicadas para opinar sobre aborto. Durante todo o episódio vemos uma sátira sobre o direito das mulheres de sequer falar sobre o assunto e sobre como, em toda a situação as mulheres são desumanizadas. Princess Carolyn possui uma participação ativa ajudando Diane em um momento de dificuldade e também fazendo o que ela faz de melhor, transformando tudo em mídia. Mas é interessante ver como um problema delicado começa a aproximar duas mulheres e que mostra que alguns preconceitos existem também entre mulheres, não apenas partindo dos homens.

 

O último episódio que gostaria de citar é Solidariedade (s04 ep05). Nele falam sobre porte de armas. Durante ao longo deste ocorrem diversos tiroteios e assassinatos em massa (todos comunicados pelo telefone) e todos realizados por homem. Então em um determinado ponto do episódio Diane adquire uma arma e faz um belo discurso sobre como é andar na rua sem ter medo dos homens. Ao final do episódio ocorre assassinato causado por uma mulher e só então começam a discutir o armamento. A discussão dos políticos é absurda, sobre os homens terem que parar de ser machistas e fazerem o que quiserem com mulheres por elas carregarem armas e se não seria melhor abolir as armas nos EUA para que os homens possam continuar “elogiando” mulheres na rua sem medo.

É absurdo, como eu já disse, é engraçado e é quase tão real que chega a ser triste. “Esse país odeia mais as mulheres do que ele ama armas” é uma frase forte e cheia de significado.

 

PAREI COM OS SPOILERS

Se depois de tudo que eu citei parece que não ficou muita esperança no futuro é por ser esse mesmo o tom da narrativa. De que se conseguem apenas pequenas vitórias pessoais, mas que o sistema todo se esforça para manter tudo como está. Não é sobre finais felizes, mas um retrato exagerado sobre como as coisas são.

BoJack não traz o discurso feminista por ser divertido. Ele o mostra por ser necessário, por ser um estigma e por precisarmos ainda discutir isso.

Eu realmente acredito que a escolha estética dessa animação seja uma forma de poderem abordar temas pesados sem que haja real identificação dos personagens com pessoas existentes, já que muitos personagens e fatos são claramente baseados na realidade.

E ainda que muitos insistam que o humor só é possível quando o usamos para humilhar as minorias e reforçar preconceitos, BoJack é uma prova de que o humor pode ser inteligente e usado para dar voz a quem precisa.

Eu gostaria de falar mais sobre, mas acho que vale a pena assistir.

Então se você está em dúvida sobre assistir ou não a BoJack Horseman, minha dica é: assista! Por esses e outros motivos vale muito a pena.

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