Falar sobre padronização nas mídias é sempre um assunto muito polêmico. Quando o produto final é uma novela, uma serie ou um filme, essa padronização fica ainda mais evidente e muito mais problemática. Pois mesmo quando as temáticas desses produtos são de ficção, os autores, diretores, produtores, gostam sempre de reforçar que é algo real, a arte imitando a vida. Consequentemente cria-se uma bolha branca, onde só os brancos tem vez.

Isso não é novidade, nem preciso citar casos de blackface, estereotipação de culturas e línguas, como quando querem representar indígenas sempre com aquelas falas “me querer água”, ou quando a personagem é asiático e colocam qualquer ator com olhos um pouco mais semicerrados, falando e sorrindo ao mesmo tempo “pastel de flango né?”

Quando esse tipo de assunto surge, o maior discurso para sustentar esse embranquecimento é a famigerada meritocracia, onde tal ator tem mais merecimento por ter mais talento para interpretar tal personagem do que outros.

A lista de atores que interpretaram personagens que originalmente eram não-brancos é bem extensa. Muitas vezes esses atores são colocados nos papeis principais como uma forma de assegurar a bilheteria, como é o caso de Scarlett Johansson em Ghost In The Shell. Acontece também quando toda uma cultura é já historicamente retratada como branca, mesmo sabendo que a realidade é totalmente o contrario, como quando Gerard Butler interpretou um egípcio em Deuses do Egito. Ou em situações piores ainda, quando todo o filme é retratado em uma cultura e o papel principal é feito pelo heroico branco, o grande salvador, como Matt Damon em A Grande Muralha, entre tantos outros exemplos, que daria para passar o restante do ano inteiro aqui só citando.

 

O caso mais recente é do ator Ed Skrein, e que tinha tudo para ser só mais um dessa lista de atores. A diferença aqui é que aparentemente Ed tomou consciência do que estava preste a fazer se aceitasse a personagem. Após criticas o ator desistiu do seu papel de Major Ben Daimio em Hellboy, personagem de origem japonesa/americana nos quadrinhos.

Na ultima segunda-feira (28), através do twitter, o ator se pronunciou sobre o assunto e informou sua saída da produção.

Em tradução literal o texto diz.

“Na semana passada foi anunciado que eu faria o Major Ben Daimio no futuro reboot do Hellboy. Aceitei o papel sem saber que o personagem, na HQ original, é de origem mista asiática. Houve conversas intensas e aborrecimento compreensível desde o anúncio, e eu preciso fazer o que sinto que é certo. Está claro que para as pessoas, representar esse personagem de uma maneira culturalmente justa é importante, e negligenciar essa responsabilidade significaria continuar a tendência preocupante de deixar de lado a história e vozes das minorias étnicas nas Artes. Sinto que é importante honrar e respeitar isso. Portanto, decidi sair do filme para que o papel possa ser escalado apropriadamente. A representatividade de diversidades étnicas é importante, especialmente para mim, pois venho de uma família de origem mista. É nossa responsabilidade tomar decisões morais em tempos difíceis e dar voz à inclusão. Espero que um dia essas discussões se tornem menos necessárias, e que possamos tornar representatividades iguais nas Artes uma realidade. Estou triste por deixar ‘Hellboy’, mas se essa decisão nos deixar mais próximos desse dia, vale a pena. Espero que faça a diferença. Com amor e esperança, Ed Skrein.”

Não consigo me lembrar de nenhum caso semelhante. Ed não é nenhum figurão da industria do cinema, que tem esse poder de negar papeis. Ele teve um papel de destaque em Carga Explosiva: O Legado, de 2015fez uma participação em Game of Thrones, como Daario, mas na temporada seguinte acabou sendo substituído pelo ator Michiel Huisman. Seu maior papel de destaque foi no filme Deadpool, de 2016, como o vilão Ajax.

Em 2015, Emma Stone foi bastante criticada quando interpretou a Capitã Allison Ng, no filme Sob o Mesmo Céu. A personagem de Emma é descrita como havaiana e chinesa. Sendo que 70% do Havaí é de população não-branca.

Após toda a repercussão negativa, Emma deu uma entrevista onde diz que aprendeu a lição. “Eu aprendi em um nível bem grande sobre a insana história de “embranquecimento” de Hollywood e o quanto este problema perdura. Iniciou uma conversa muito importante.”, mas ainda assim a atriz se defendeu dizendo “A personagem não era mesmo para parecer com suas origens”.

Não dá para levantar a salvas de palmas para Ed Skrein, pois não sabemos até onde a preocupação com a diversidade étnica foi a real motivação, já que rendeu tantas criticas. O ator pode ter pensando na sua imagem, ou os responsáveis pelo filme se preocuparam com as criticas negativas, já que a obra não começou nem mesmo ser gravada e já não é bem esperada pelos fãs. Contudo se levarmos em consideração que outros atores já estiveram diante do mesmo dilema e ainda sim preferiram tomar o papel para si, e soltar qualquer justificativa após a realização do filme, Ed teve uma atitude exemplar.

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