Vivemos em uma sociedade patriarcal onde o homem heterossexual é considerado seu centro. Sendo assim, toda a indústria de entretenimento é voltada majoritariamente a ele, colocando as mulheres heterossexuais em segundo plano e negando o lugar das pessoas LGBT na sociedade. Devemos entender ainda que a indústria do entretenimento, além de cumprir seu papel principal, reafirma valores e indiretamente educa nossa sociedade a reproduzir o mesmo padrão comportamental com relação aos nichos marginalizados que a compõe. Um dos fatores centrais nisso é a abordagem da sexualidade, que ao mesmo tempo que tem sua naturalidade negada, molda os pilares do machismo. No texto que segue abordaremos uma plataforma ainda pouco “levada a sério” no que se diz respeito a produção de conteúdo artístico e cultural: os games eletrônicos. Diferente do tratamento recebido pelo cinema, os games ainda são encarados pelos leigos como frivolidade, ignorando que além desta indústria representar uma parcela significativa no mercado do entretenimento, é um nicho infectado por padrões machistas que tem legitimado todo um sistema cultural que ajuda a manter o homem heterossexual no topo da sociedade contemporânea. Antes de abordarmos tais especificidades e uma possibilidade de ruptura de seus padrões, devemos entender como o exercício  e representação da sexualidade devem ser encarados como um ato político.

A cultura machista na comunidade gamer

A cultura gamer, de modo geral, é essencialmente machista. Alguns estudiosos como Kristen Lucas e John L. Sherry defendem que proporcionalmente existem mais homens do que mulheres gamers, no entanto justificam os dados apresentados no artigo Sex Differences in Video Game Play: A Communication-Based Explanation pontuando diferenças cognitivas entre homens e mulheres, sendo que segundo eles as especificidades que atribuem a mulheres não são exploradas no desenvolvimento de games, sendo este um dos motivos das mulheres se interessarem menos por games. No entanto acredito que a diferença é simplesmente cultural, pois assim é a construção social do gênero. Desde a infância somos ensinados sobre o que é “coisa de menino” e “coisa de menina”, e os games, possivelmente por estarem muitas vezes relacionados a violência (mais uma vez culturalmente associada a figura masculina), são incluídos no “pacote” de brincadeiras comuns ao gênero masculino. O estudo de Lucas e Sherry soa um tanto antiquado se compararmos com pesquisas que abordam as teorias de gênero. De qualquer forma é notável a diferença de público e nisso a indústria gamer peca ao fazer games por e para homens brancos cisheterossexuais. Com isso acabamos por ter a disposição uma variedade de games que objetificam a mulher e exaltam características ligadas ao machismo, cujo “pacote” como era de se esperar, inclui a LGBTfobia.

Mods e a liberdade do usuário

Dentro da comunidade gamer são chamados de mods as modificações não oficiais feita na forma que um determinado game opera. Os mods normalmente incluem a adição ou customização de conteúdos que originalmente não estavam presentes no games como novos itens, locais a serem explorados ou mesmo o reparo de erros que a produtora oficial não corrigiu. A facilidade de acesso a programas de edição, bem como a informação através de tutoriais online, tem permitido que uma maior quantidade de gamers consigam fazer alterações mesmo sem grandes conhecimentos técnicos. Alguns games possuem ainda ferramentas de edição similares as usadas profissionalmente na produção daquele determinado game, garantindo que mesmo os mais leigos consigam editar conforme suas preferências. Este é o caso das séries The Elder Scrolls e Fallout, que de seus terceiros a quintos títulos possuem o Creation Kit, que facilita o acesso a adulteração dos dados da programação dos games. A possibilidade de customização leva ao exercício da criatividade do jogador, agora modder, dando a ele a possibilidade de alterar games conforme sua vontade. Sendo assim é natural que sejam incluídos conteúdos que outrora não estavam presentes nos games, como por exemplo nudez e sexualidade.

Creation Kit do game TES V: Skyrim

Mods e a possibilidade de representação do sexo

Assim como acontece na indústria cinematográfica todos os games produzidos nas últimas décadas possuem classificações etárias de público alvo, filtrando conteúdos como linguajar utilizado, violência gráfica e insinuações de sexualidade. No entanto ao observarmos mais detalhadamente, até mesmo no cinema não há pudores quanto a representação de violência brutal, mas ainda paira um grande tabu sobre a nudez e a sexualidade, ao menos em partes. A passos lentos existe alguma evolução, mas o pouco de sexo representado tendenciosamente objetifica a mulher. Podemos citar dois exemplos muito claros como as séries The Witcher e God of War, cuja única nudez exposta é a de mulheres padronizadas e objetificadas, inseridas no enredo como algum tipo de “prêmio” ao jogador.

God of War: Ascension

Alguns games se propõe a serem mais inclusivos como Mass Effect 3 e Dragon Age: Inquisition, onde é possível acessar cenas de sexo LGBT não explícito. Mas o fato é que nestes casos ainda pecam por censurar o corpo masculino enquanto o da mulher lésbica ainda é fetichizado. Sim, é importante haver representatividade LGBT, mas é importante questionar: por que ela deve obedecer as regras veladas impostas por toda a cultura machista em que vivemos?

representação de sexo gay Mass Effect 3, não explícita
representação de sexo lésbico em Dragon Age: Inquisition com exposição do corpo feminino

A possibilidade que mod dão aos gamers com relação a nudez e sexualidade, contudo, é excepcional. Ao tratarmos de RPGs (role playing games) onde o foco é a interpretação do papel do protagonista do enredo proposto, a mera possibilidade de nudez é um adendo bem vindo no quesito “imersão”. Deixando a sexualidade de lado e pensando na nudez em sua forma mais natural possível, reflitamos sobre o exemplo: se quando o avatar “in game” do jogador ataca um inimigo ele sangra, por que ao se remover as roupas seu personagem continua usando roupas íntimas, nunca ficando completamente nu?

personagens originalmente despida em Skyrim

Claro que sempre existe o lado negativo, uma vez que dar essa liberdade ao público gamer incluso na cultura machista pode (e vai) gerar muito mais objetificação do que a versão softcore original, mas não podemos negar que também existem possibilidades inclusivas até mesmo ao falarmos de padrões corporais. A seguir vemos exemplos de dois mods que alteram o corpo da personagem feminina no game Skyrim, sendo que o primeiro mostrado (SeveNBase) é extremamente objetificado enquanto
o segundo (Chubby Races for Skyrim), embora um tanto fetichizado, é uma alternativa inclusiva por mostrar uma possibilidade de corpos fora do padrão corporal imposto pela mídia.

personagem objetificada em um mod de Skyrim
corpo fora do padrão, ainda que fetichizado

Quanto ao homem gay podemos considerar icônica a possibilidade de “inversão de papéis”, pois se antes o homem hétero objetificava a mulher, agora o homem homossexual tem a possibilidade de objetificar outros homens, em um ato político, conquistando assim seu espaço no exercício de sua sexualidade. ATENÇÃO: clique nas imagens a seguir para ver sem censura (+18) 

The Elder Scrolls V: Skyrim
The Elder Scrolls IV: Oblivion

Podemos concluir assim que mods de cunho sexual podem representar uma mudança no cenário dos games, não só quebrando os tabus acerca da nudez mas também concedendo a possibilidade desconstrução dos padrões machistas constantemente afirmados na produção de games, bem como a inclusão dos nichos marginalizados e sendo uma alternativa viável para a produção de uma espécie de
hacktivismo” em uma plataforma ainda pouco explorada.

 

Referências:

An Abridged History Of Video Game Dicks [NSFW]

SHERRY, John L; LUCAS, Kristen. Sex Differences In Video Game Play: A Communication-Based Explanation

The “Uncensored” World of Street Fighter Mods: The Good, The Bad, The Naked

 

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