Vocês já ouviram falar do gay perfeito? Na minha adolescência, eu achava que eu precisava ser o melhor em TUDO pra compensar um defeito meu que era incorrigível: ser gay. Era como se a minha cota de defeitos pra essa vida já estivesse cheia o suficiente. Eu não podia me dar ao luxo de ter defeitos. Eu tinha que ser perfeito.

Eu ligava a televisão e os poucos gays que apareciam ali meio que diziam que eu precisava ser um ser humano exemplar. Na novela Paraíso Tropical (2007), o casal Rodrigo (Carlos Casagrande) e Tiago (Sérgio Abreu) eram advogados ricos e bem-sucedidos. Moravam juntos e até dividiam a mesma cama! Uau. Na série Glee, produzida pela Fox entre 2009 e 2015, Kurt (Chris Colfer) era um cantor esplêndido, que andava sempre bem vestido e, de longe, sabia identificar um cabelo platinado. Blaine (Darren Criss), futuro namorado de Kurt, estava sempre vestindo o seu impecável terno dos The Warblers e desfilando com seu cabelo engomado. E juntos fizeram duetos românticos, como Candles e Story of my life. Já no filme Orações para Bobby, produzido para a TV em 2009, o personagem do título (Ryan Kelley) é um menino afetuoso, gentil e delicado: um filho que só queria ser amado pela mãe preconceituosa.

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Blaine (Darren Criss), em Glee

O fato de eu me sentir atraído por outros rapazes me obrigava a ser bem-sucedido, ter um apartamento no Leblon, comer salmão com alcaparras, entender sobre alta-costura, conhecer sobre vinhos, cantar bem, saber falar sobre cabelo e maquiagem, gostar de musicais, ser bem vestido, ser gentil, ser educado, dançar bem e raramente beijar na boca. Sabe, eu tô SATURADA!

Agora segura na minha mão e olha nos meus olhos: gays não são perfeitos. AAAA! A gente queria, mas, infelizmente, não somos a Jean Grey, não temos poderes sobre-humanos.

A recorrências desses gays perfeitos nas novelas, nas séries e nos filmes acabam criando estereótipos: essas generalizações sobre os gays. A escritora nigeriana Chimamanda Adichie (a dona da voz que aparece em ***Flawless, da Beyoncé) disse numa palestra que “o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos”.

Mas qual é o fucking problema com o estereótipo do gay perfeito? Porque esse estereótipo nos limita; ele cria padrões a seguir que são praticamente inalcançáveis. É como se dissessem que, sim, você poderá ser aceito por todas as pessoas a sua volta se você for bondoso, humilde, rico, bonito, sorridente, engraçado e discreto. Seja gay, mas não crie problemas. Acontece que nenhum desses critérios é exigido de personagens não-gays. Mesmo que você seja o chefe de uma família mafiosa (O Poderoso Chefão), um escritor assassino (O Iluminado) ou um jovem inconsequente (Curtindo a vida adoidado), será muito mais fácil você conseguir a afeição do público se você for hétero.

Repetindo: gays não são perfeitos. E é por causa disso tudo que eu vim em defesa dos vilões que são gays. Mas o vilão pode ser gay?

Félix (Mateus Solano), da novela Amor à vida (2013), é nome marcante na teledramaturgia brasileira por ser um vilão carismático, ácido e ter protagonizado, junto com Niko (Thiago Fragoso), o primeiro beijo entre dois homens em canal aberto no Brasil. Ele não é o personagem mais politicamente correto de todos os tempos, mas ainda assim é importante para se pensar sobre quebra de estereótipos. Ao invés de ser um gay perfeito, Félix tinha problemas com o pai, agia por impulso, era inconsequente e tinha inveja da irmã.

Da mesma maneira, Thomas (Rob James-Collier) de Downton Abbey (2015) também tem atitudes inescrupulosas. É ganancioso, tenta se aproveitar das fragilidades das pessoas ao seu redor, mas, ao mesmo tempo, sofre com os traumas da guerra e com paixões não correspondidas.

Recentemente, assisti ao filme King Cobra (2016), uma cinebiografia do ator pornô Brent Corrigan, que trouxe James Franco como um produtor de filmes adultos que é alimentado pela cobiça, capaz até de cometer crimes para alcançar seus objetivos ao lado do namorado Harlow (Keegan Allen).

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Harlow (Keegan Allen) e Joe (James Franco), em King Cobra

Nossa, mas tu acha que os veado é tudo bandido? Não, não é isso. Acontece que é preciso ir além dos gays perfeitos, ricos, bondosos e bem-sucedidos. Mas é lógico que também não podemos ser relegados aos guetos da criminalidade, onde vivíamos até décadas atrás. É preciso que o entretenimento não coloque os gays dentro de caixinhas limitadas pelos estereótipos. Porque a gente é mais do que 8 ou 80.

É preciso que, assim como os héteros, os personagens gays (e LGBT de maneira geral) sejam, antes de tudo, humanos. (Ok, a gente pode ser X-men também). E isso tem sido tratado em diversas produções. Assim como qualquer outro personagem hétero, os gays também são egoístas (Sense8) ou trapaceiros (How to Get Away With Murder). São ladrões de banco (Plata Quemada), tem problemas familiares (Eu Matei Minha Mãe), problemas financeiros (Unbreakeable Kimmy Schmidt) ou problemas na escola (Moonlight). Sim, são carnavalescos (Senhora do Destino) ou Drag Queens (Hurricane Bianca), mas também são cientistas (O Jogo da Imitação), hackers (Revenge), deputados (Milk), cowboys (O Segredo de Brokeback Mountain), estudantes (Dear White People), cavaleiros (Game of Thrones) e treinadores de futebol americano (Modern Family).

Se temos defeitos, isso não tem nada a ver com a nossa sexualidade. Se não somos perfeitos, é porque somos humanos. E por que a gente não pode ser o vilão? Por que não podemos ser o super-herói? Por que não podemos ser tão interessantes e complexos quanto os héteros? E tem que ter beijo sim!

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